FLoripa – Seminário de Orientação LAcaniana.

Seminário da Orientação Lacaniana

Coordenadores

Luis Francisco E. Camargo

Silvia Emília Espósito

Tal é o mito que Freud propõe ao homem moderno, considerando que o homem
moderno é aquele para quem Deus está morto – isto é, que julga sabê-lo. Por
que Freud envereda por esse paradoxo? Para explicar que o desejo, com isso,
será apenas mais ameaçador, e, logo, a interdição mais necessária e mais
dura. Deus está morto, nada mais é permitido. O declínio do complexo de
Édipo é o luto do Pai, mas ele se conclui por uma sequela duradoura: a
identificação que se chama supereu.

LACAN, O triunfo da religião (1960), 2005, p. 30.

Em um breve artigo publicado em Le Point, intitulado O dinheiro: tabu
francês, totem americano (dez. 2012), Jacques-Alain Miller apresenta a
seguinte premissa: o dinheiro é um tabu na sociedade francesa. O dinheiro é
possuidor da ambivalência comum a todo objeto sacer, o sagrado e o santo e,
ao mesmo tempo, o profano e o impuro. No entanto, o psicanalista francês
deixa suspensa a premissa em que o dinheiro é totem na sociedade capitalista
americana. Dinheiro, Totem e Tabu, um deus obscuro no império capitalista.

Coincidência ou não, três meses antes, Giorgio Agamben, em entrevista
publicada no Ragusa News, traduzida pelo professor Selvino Assmann (UFSC),
afirmou que “o capitalismo é uma religião, a mais feroz, implacável e
irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção e
nem trégua Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e
cujo objeto é o dinheiro” (out. de 2012).

Baseado nos trabalhos de J. G. Fazer (A Study in Magic and Religion e Taboo
and the Perils of the Soul [1911]) e de Wilhelm Wundt (Mithus und Religion
[1906]), Sigmund Freud reapresenta as teses antropológicas em que o totem é
considerado elemento fundador de uma religião, para logo embasar a tese
psicanalítica do retorno do totemismo na infância. Tese sustentada por
outra, oriunda da biologia da sua época, a teoria da recapitulação, a
ontogenia recapitula a filogenia. Freud explica através dos mecanismos
responsáveis pela herança biológica como se realiza a transmissão simbólica
na cultura. O estudo realizado por Freud é louvável, já através dessas teses
sustentará vários pontos da teoria, como o problema da escolha das neuroses:
“uma histeria é uma caricatura de uma obra de arte, uma neurose obsessiva, a
caricatura de uma religião, e um delírio paranóico, de um sistema
filosófico”.

A partir de Freud, poderíamos pensar na relação entre religião e política?
Para Freud, o retorno do totem é encontrado na fase do desenvolvimento
infantil em que prepondera o objeto sublime e, ao mesmo tempo, execrável: o
objeto anal. Eis a pista indicativa do sacer na ontogenia do indivíduo.

Lacan profetizou: a religião triunfará! E não seria através do discurso
capitalista que encontraríamos o triunfo da religião?

Tendo em vista a nossa XIX Jornada, Psicanálise, Crenças, Leis, a ser
realizada nos dias 22 e 23 de agosto de 2014, a diretoria da EBP-SC optou em
estudar no espaço do Seminário da Orientação Lacaniana textos de Freud,
Lacan e Miller que abordam temas sobre psicanálise, religião e política.

Na reunião da próxima quarta-feira, 07 de maio, iremos trabalhar o capítulo
IV de Totem e Tabu, O retorno do totemismo na infância.

Luis Francisco Espíndola Camargo

Bibliografia sugerida:

FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. Obras Completas. Volume 11. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012, pp. 121-154.

LACAN, Jacques. O mestre castrado. O seminário, livro 17. O avesso da
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, pp. 81-94.

LACAN, Jacques. Édipo e Moisés e o pai da horda. O seminário, livro 17. O
avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, pp. 95-110.

LACAN, Jacques. Do mito à estrutura. O seminário, livro 17. O avesso da
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, pp. 111-125.

LACAN, Jacques. A feroz ignorância de Yahvé. O seminário, livro 17. O avesso
da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, pp. 128-134.

Sobre alexandremoraisdarosa

Professor de Processo Penal e Juiz de Direito Ver todos os artigos de alexandremoraisdarosa

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