Sobre recentes manifestações a respeito de Israel, por Éder Silveira

 
Sobre recentes manifestações a respeito de Israel
Éder Silveira
Doutor em História pela UFRGS
Professor na UFCSPA
Duas manifestações de parte de cronistas do jornal Zero Hora, quais sejam, a coluna de David Coimbra “O nosso modelo”, publicada em 18 de julho de 2014 e “Como curar um fanático”, assinada por Cíntia Moscovich e publicada no dia 21 de julho de 2014, tocam em um tema da maior importância e que vem merecendo meditação por parte de inúmeros intelectuais e ativistas em diversas partes do mundo: os ataques israelenses contra regiões da Palestina.
Gostaria de tecer alguns comentários sobre ambos os textos, para que, no mínimo, exista um contraponto, ainda que a repercussão de ambos não seja comparável àquilo que escreve um professor universitário.
Começo pelo primeiro. Em parte de suas crônicas mais recentes, Coimbra vem tecendo comparações entre os EUA e o Brasil. Esse procedimento, bastante antigo, via-de-regra assume duas posições. Ou tudo aquilo que é estrangeiro é ruim, pois o Brasil seria o melhor de todos os lugares (as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá, já dizia o poeta exilado em Portugal), ou a nova realidade é maravilhosa e deve servir de modelo a todos nós. Mais de uma vez, o cronista assumiu a segunda via.
Na crônica supracitada, ele ardilosamente parte de um exemplo comezinho, de algo que faz parte do cotidiano mais singelo. Ele descreve um parque infantil, no qual pais e crianças podem se divertir com tranquilidade. Lá, os brinquedos são novos e bem cuidados. “Estranhos” sozinhos são detidos pela polícia, sempre vigilante. Ninguém rouba ou estraga os brinquedos. Um ambiente protegido, onde todos podem viver em paz, até mesmo porque a polícia está sempre perto.
Esse exemplo nos toca? Em grande medida, sim. Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos cidadãos das grandes cidades brasileiras é a dificuldade de usufruir do espaço público. Todos nós desejamos lugares bem cuidados e seguros, de preferência ao ar livre. Quem seria contrário a espaços públicos que fossem devidamente mantidos pela administração pública? Entre nós, indiscutivelmente, é maior o investimento em espaços privados e comerciais, como os shopping centers, tristemente convertidos em espaços de lazer. Tudo o que desejamos é o oposto da privatização do espaço público.
Lançando mão desse jogo de oposições, aquilo que “eles” possuem e são versus aquilo que nós não possuímos e não somos, o cronista sentencia: trata-se de “um estágio mais avançado da civilização. Um modelo a ser seguido”. Embasa essa observação com aquilo que ouviu de uma brasileira que trabalha como babá nos EUA: lá a prioridade são as crianças e os velhos. Creio que essa dicotomia, uma meia verdade, deveria ser analisada com vistas ao modo como certos idosos e crianças são tratados quando não dispõem de seguro-saúde, por exemplo, mas não há espaço para detalhar esses pontos. Assim sendo, sigo.
Não satisfeito, o cronista passa a pontificar. Ele sugere que nós, brasileiros, deveríamos nos espelhar nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e em Israel. Segundo ele, Israel “é uma democracia que respeita seus cidadãos”. Afirma isso e, logo em seguida, completa, em Israel “as crianças têm educação” e “as mulheres não são obrigadas a sair à rua debaixo de um lençol preto”. Segundo ele, esse é o “tipo de Brasil que os brasileiros querem”.
Não tenho dúvidas de que Israel respeite os “seus cidadãos”. Desejamos, no entanto, Estados que respeitem as pessoas, todas as pessoas, independente de sua nacionalidade, cor da pele ou credo religioso. Desejamos aquilo que Jacques Derrida viria a chamar de “hospitalidade incondicional”. Desejamos discutir as possibilidades de paz e de perdão, tomando o respeito à alteridade como um princípio fundamental. Caricaturas vulgares, tais como as empregadas pelo cronista, falam mais a seu respeito do que daqueles a quem procura caricaturar. Os trajes femininos islâmicos (Burca, Xador, Niqab, Hijab, Abaya), ainda que possam ser vistos como diferentes aos nossos olhos, pertencem a um universo cultural rico, a uma cultura milenar e a um conjunto de códigos que David ainda não conhece.
O cronista completa a sua reflexão lamentando que ao redor do Mundo pessoas de todas as nacionalidades e credos religiosos se manifestem pedindo o cessar-fogo. A desproporcionalidade das forças de Israel com relação ao poder de fogo dos palestinos não pode ser comparada. Dados da organização humanitária B’Tselem afirmam que, de 2000 até o momento, cerca de 7 mil palestinos foram mortos contra menos de 400 israelenses. E, bem-sabido, uso esses números como mera ilustração, uma vez que nenhuma morte pode ser tolerada, de nenhuma parte.
Aqui, passo para a crônica da escritora Cíntia Moscovich. Incomodada com uma nota oficial, publicada pelo Diretório Estadual do Partido dos Trabalhadores, na qual o partido “condena os ataques e o terrorismo de Estado praticado por Israel” e onde são pedidos o cessar-fogo e a abertura das negociações de paz. A autora recomenda, então, as reflexões do importante escritor israelense Amós Oz, especialmente o livro “Contra o Fanatismo”.
A conclusão tirada pela autora do livro em questão é a seguinte: no Oriente Médio, a luta não é entre dois povos, mas sim “entre o fanatismo e a tolerância”. Fico em dúvida se o pêndulo da autora está entre dois imperativos éticos ou entre os dois lados do infame muro que lá está. A autora defende que “ambos os lados concedam que a ideia de ‘varrer Israel do mapa’ se transforme no reconhecimento do Estado judeu e que se funde a paz em nome do direito de todos”. Esse argumento é curioso, uma vez que o Estado de Israel, ao contrário daquilo que era sonhado por inúmeros pensadores libertários, não foi fundado na comunhão, mas sim em uma política sionista e artificial que vem procurando expandir o território israelense sobre a palestina há décadas.
Quando a ação militar israelense é criticada, lançar mão de sugestões de antissemitismo é uma estratégia das mais baixas. Não se trata de antissemitismo, se trata da defesa da paz que só pode ser imaginada a partir de um cessar-fogo que deve partir de Israel. Ser contra as ações militares na Faixa de Gaza não significa ser antissemita, significa aprender a lição amarga deixada por todos aqueles que perderam a vida nos pogroms ou nos campos de concentração em nome da intolerância. Significa reconhecer o medo nos olhos da menina palestina, que em meio ao caos, cobriu os olhos da sua boneca para que ela não visse o que os homens são capazes de fazer.
Éder Silveira
Doutor em História – UFRGS
Professor da UFCSPA

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Professor de Processo Penal e Juiz de Direito Ver todos os artigos de alexandremoraisdarosa

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